Menos de 2% dos professores da UFPel são negros

02/01/2018 Fonte:Diário Popular

Apenas 20 dos 1.494 professores efetivos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) são negros. O número está longe de retratar a realidade étnica do município, formada por 20% de pretos e pardos. Políticas de ações afirmativas implantadas na pós-graduação e nos concursos para docentes buscam transformar essa realidade.

A resposta para tanta desigualdade pode estar na baixa quantidade de negros com o título de mestre e doutor, afirma o diretor da Coordenação de Inclusão e Diversidade (CID) da UFPel, Cláudio Carle. As especializações são pré-requisito para lecionar em quase todos os cursos da instituição. Apesar de a política de ações afirmativas para ingresso na graduação ter sido instituída em 2012, na pós ela só chegou em 2017. "Trata-se de uma reparação histórica necessária e importante", avalia Cláudio.

O órgão responsável por pensar as questões de representatividade racial na universidade é o Núcleo de Ações Afirmativas e Diversidade (Nuaad). Fábio Gonçalves, integrante do núcleo e do Conselho Municipal da Comunidade Negra, explica que a primeira grande vitória do Nuaad foi a realização do Fórum Cotas Sim. Foi a partir deste movimento que a UFPel passou a pensar e, posteriormente, garantir o acesso de alunos negros.

Hoje, cerca de um terço das vagas de graduação é reservada para pretos, pardos, indígenas e deficientes. Segundo Fábio, a importância das cotas se deve pela marginalização da população negra. "Quantos negros existem nos mais altos espaços de poder?", questiona. No Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFPel, lançado em 2013, consta a inclusão da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nos currículos dos cursos. Para auxiliar os docentes nessa tarefa, foi instituído o programa Mama África, do qual Fábio fez parte. Linhas de pesquisas voltadas às questões raciais também foram criadas dentro das pós-graduações.

Mas, apesar de todos os esforços, a representatividade negra dentro do corpo docente da UFPel ainda é ínfima - corresponde a menos de 1,3% dos professores efetivos. Segundo o Censo do IBGE de 2010, 20% da população de Pelotas é formada por pessoas pretas e pardas (para o IBGE, o grupo negro reúne pretos e pardos). Uma lei promulgada em 2014 tenta amenizar este cenário, reservando 20% das vagas nos concursos públicos a essa população.

Rara entre o corpo docente                                                                 

Raridade no meio acadêmico, a professora Rosemar Lemos, da licenciatura em Artes Visuais, afirma que o desafio inicial foi fazer parte do quadro de docentes efetivos da UFPel. Quando ingressou, em 2008, era mais raro encontrar professores negros na instituição de ensino. Durante sua graduação, mais difícil ainda. "Mesmo sem ter professores negros que me proporcionassem uma identidade, percebi na educação uma possibilidade de ascensão social e garantia de respeito", afirma. Apesar disso, conta sentir certo preconceito tanto por parte dos alunos quanto de outros docentes.

Para tentar amenizar essa realidade, acredita ser fundamental possibilitar uma educação de qualidade. Além disso, reitera a importância das cotas raciais tanto na graduação quanto na pós. Fiscalizar se as vagas estão sendo direcionadas às pessoas de direito é outro ponto importante. Para isso, Rosemar faz parte de uma banca avaliadora responsável por determinar quem tem ou não direito a acessar o benefício. "Incentivar os alunos negros a acessar a pós-graduação é importante, pois a maior qualificação profissional poderá proporcionar uma disputa em iguais condições", afirma.

Buscando por uma vaga no doutorado em Educação, Raquel Silveira, negra, ficou impressionada ao saber da quantidade de professores negros lecionando na UFPel. "Nunca tive professores ou colegas negros no mestrado ou na especialização", recorda. Com o sonho de ser professora universitária, reforça a importância das cotas como um mecanismo que abre portas para o ingresso no Ensino Superior. "Pretendo seguir sempre estudando, apesar de todos os desafios", conclui.

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